
CJ- Que perfil tem o novo director da nossa escola?
D- Perfil humanista, dialogante e, espero, mobilizador do melhor de cada um para o colocar ao serviço de todos, ao serviço do nosso agrupamento.
CJ- Para ser director tem que deixar de leccionar?
D- É uma decisão que terei de tomar. A lei permite-me leccionar uma turma. A complexidade do cargo, no entanto, exige muito tempo e energias. Como não quero prejudicar os alunos, receio ter de optar pela não docência.
CJ- O que valoriza no seu projecto?
D- O meu projecto valoriza os professores, os alunos, a autoridade e o respeito na relação pedagógica, a componente desportiva e a abertura do agrupamento às realidades culturais, científica, universitárias…
CJ- Mudanças, quais?
D- Reduzir a burocracia, responsabilizar directamente cada actor (professor, aluno, pai…), agilizar processos e procedimentos, aumentar a componente desportiva, criar eventos de aproximação entre os membros da comunidade educativa, envolver os alunos mais velhos no acompanhamento dos mais novos…
CJ- O que mais teme neste desafio?
D- Que o diálogo esmoreça e que a solidariedade e capacidade de entrega a uma causa comum deixe de envolver todas as nossas competências. Cada um de nós terá de estar profundamente vinculado a uma realidade de pertença (agrupamento).
CJ- Que lugar consagrará ao nosso jornal quando assumir o cargo de director?
D- Vejo o jornal “O Berrão” como o veículo necessário para transmitir a nossa realidade, ligando-a ao concelho. Isto só será possível reforçando a sua tiragem e trazendo até si, artigos e preocupações da própria comunidade.
CJ- O que fará pelos nossos professores?
D- Tudo o que puder. Como? Motivando-os, ouvindo-os, trabalhando ao seu lado, responsabilizando-os e fazendo-os sentir imprescindíveis neste processo sempre em construção que é o ensino e a educação.
CJ- E para os nossos alunos?
D- Os alunos precisam de gostar da escola, de a sentir sua. É importante criar espaços de convívio, dentro de fora das salas, dinamizados pelos próprios alunos. Tudo isto com plena assunção de regras de respeito mútuo. Por outro lado, e isto é muito importante, a escola deve existir para todos, bons e maus alunos, sem qualquer prejuízo mútuo. Não vou admitir que alunos mal comportados condicionem e prejudiquem efectivamente os alunos que querem trabalhar e têm objectivos a alcançar. Não podemos continuar a ser permissivos com alunos que já tiveram todas as oportunidades e receberam todo o apoio e que rejeitam qualquer mudança no seu comportamento.
CJ- Qual é a sua visão acerca desta reforma do ensino?
D- Sou muito crítico. Há mexidas a mais, intempestivas algumas, incoerentes outras, pouco articuladas quase todas. A necessidade de mostrar serviço, construiu alicerces frágeis, estruturas inseguras. Na educação as alterações devem ser poucas, lentas e envolver quem sabe da obra, ou seja, os professores. Como seria construir uma casa desprezando o saber dos engenheiros? Ou fazer uma intervenção cirúrgica expulsando os médicos do bloco operatório? É isto o que tem sido feito aos professores.
CJ- O que pensa dos professores do Agrupamento, que chefiará em breve?
D- Para mim são os melhores. É com eles que conto. Temos de potenciar as suas capacidades, diminuir as suas fragilidades. O ser humano é sempre passível de melhoria. Não devemos desistir dos nossos sonhos e de prosseguir o ideal de perfeição. “Que homem é aquele que não contribui para melhorar o mundo em que vive?”- frase do filme “O Reino dos Céus”- que tivemos oportunidade de ver no Ciclo de Cinema.
CJ- A juventude está perdida?
D- Nunca esteve, não está e nunca estará. A juventude é um conceito generalista. Há jovens responsáveis e outros que o são menos. Sempre foi assim. Uma coisa para mim é certa: não se constrói o futuro sem os jovens e o futuro será o resultado da acção dos jovens. Deitemo-nos pois ao trabalho que o tempo urge e há tanto a fazer!
CJ- Porque é que acha que o ensino caiu em descrédito?
D- Há política a mais no ensino. Há alterações a mais. Ouve-se pouco quem está no terreno. O ensino está, por vezes, à mercê de teóricos, homens e mulheres que não dão aulas há muito tempo e só conhecem os alunos através de filtros e preconceitos recuados os vanguardistas. Ensinar é uma obra de paciência, de vitórias e de derrotas. Queremos, com frequência, esconder as derrotas e não cuidamos suficientemente das vitórias. Parece que todos os problemas do país têm de ser resolvidos pela escola e na escola! Estranho, não acham?
CJ- É professor de História e ficará na História deste Agrupamento. O que pretende que se eternize?
D- Gostaria que se eternizassem a felicidade, a solidariedade, a partilha, a responsabilidade e, especialmente, a memória. Hoje, não temos memória da memória. Quem não tem memória vive à deriva, correndo o risco de ser fantoche de vontades alheias.
CJ- Que valores é que mais preza?
D- Trabalho, honra, dignidade, integridade, honestidade. Há mais; no fundo, todos os valores que agigantam a nossa humanidade e a vontade de partilhar o futuro.
CJ- Indique-nos aquilo de que nunca prescinde.
D- A luta pela verdade, pela dignidade, a defesa dos mais fracos, a defesa de todos os valores que indiquei e da matriz espiritual e cultural da vida humana, hoje tão pouco respeitada e valorizada. Somos muito mais do que aquilo que temos e do que compramos. Reparem: somos!
CJ- Sabemos que reside em Mirandela mas que já trabalha cá há muitos anos. Que significado tem Murça para si?
D- Gosto de Murça. Sou um privilegiado pois sinto-me em casa nos dois lugares. As pessoas desta terra sempre me trataram muito bem. Gosto também delas. Qualquer obra que eu possa fazer aqui é uma obra feita em casa.
CJ- O que é que o motivou a candidatar-se a este cargo?
D- A vontade de servir e de contribuir para o crescimento deste agrupamento. Já o fiz noutras e diversas funções, agora chegou a altura de ser com Director.
CJ- Como lida com o poder?
D- Com respeito e com desconfiança. Com respeito porque o poder é essencial na orgânica das nossas sociedades, com desconfiança porque não quero ser dominado por ele. Não quero esquecer nunca que ao meu lado, repito, ao meu lado, estão pessoas que comigo lutam para melhorar o nosso agrupamento.
CJ- Sabendo que o seu cargo acarretará uma responsabilidade acrescida, qual é a posição da sua família face a esta nova realidade?
D- Não me teria candidatado a esta nova função se não tivesse o apoio da minha família. Em todos os momentos da minha vida sempre o tive. Há uma profunda solidariedade entre nós. Falamos abertamente de tudo e as decisões são tomadas em grupo.
CJ- A História “passou à história”?
D- A História pode reflectir sobre ela própria mas isso não é uma forma de se ultrapassar. Não podemos e não devemos fugir da História. Anular o passado é impossível e não é conveniente fechar os olhos às realizações humanas, no que tiveram de positivo ou de negativo. Não querer aprender, achar que o futuro é algo de inteiramente novo, surgido do vazio ou do nada, é uma atitude pouco fundamentada. A História ensina-nos a ter cuidado com povos ou sociedades sem memória. Não cultivar a memória, não respeitar o esforço/ trabalho de todos os que viveram antes de nós, é malbaratar uma herança que altruisticamente nos foi doada, é sentirmo-nos Deuses quando, na realidade, nem homens pequenos somos.
CJ