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Não, não, sim, sim.

Quando generalizamos, corremos o risco de cometermos grandes injustiças. Hoje, tal como quando éramos crianças, os núcleos familiares são muito diversificados, daí, falar numa generalização tendo consciência de que nem tudo se pode medir da mesma forma.

Com muita frequência, faço reflexões sobre um assunto que me angustia, principalmente quando penso nas consequências futuras e que gostaria de partilhar convosco. Penso que ninguém duvida do grande amor que os pais têm aos seus filhos. Este amor faz com que tenhamos dificuldade em os ouvir chorar e fazemos tudo para lhes ver um sorriso no rosto. Quando são pequenos, fazemos-lhes as vontades todas para que não chorem. Quando entram para o Jardim de Infância, fazemos-lhes as vontades para que se sintam felizes. Quando vão para a escola, fazemos-lhes as vontades, porque estamos muito atarefados com o trabalho, os compromissos pessoais e dos nossos filhos. Quando vão para o segundo ciclo, sentimo-nos culpados pelo pouco tempo que temos para eles e então há que lhes dar o que querem para compensar. Os nossos filhos crescem sem terem noção da palavra não. Conforme vão crescendo começam a ter cada vez mais dificuldades em lidar com as frustrações, porque não estão habituados “a levarem um não”. Às vezes dizemos um não/sim, pois, inicialmente, dizemos não, mas porque não temos tempo para argumentação, esse não vira sim. Todos nós sabemos que, durante toda a nossa vida pessoal e profissional, vamo-nos deparando com obstáculos e temos que possuir capacidades mentais e emocionais para os superar. Desde bebés, é imprescindível que se apercebam da existência de regras que gerem as sociedades e, por consequência, os núcleos familiares. Essas regras e esses nãos transmitem uma segurança à criança que é um dos alicerces para um bom desenvolvimento. Como podem confiar nos adultos que mentem, pois num dia lhes dizem sim numa situação e noutro dizem não numa outra situação similar. Como podem confiar num adulto em que para os calar dizem que não os vão deixar para irem trabalhar e vão na mesma às escondidas. Como podem confiar num adulto que diz sempre sim, quando as próprias crianças têm inteligência suficiente para fazer chantagem com o adulto para obter o que quer. Que jovens e adultos vamos ter, que até têm boas notas, aparentemente até têm tudo e se suicidam, porque o namoro acabou, porque tiveram uma negativa e choram sem saber lidar com isso, metem-se na droga, porque se sentem incompreendidos, pois de repente o que era aceitável ainda a um adolescente deixa de o ser e eles não foram habituados a isso, não aguentam as exigências e a competitividade dos estudos e até do próprio trabalho laboral. Se dermos tudo hoje aos nossos filhos o que nos irão exigir amanhã. Será possível um ser crescer saudável sem conhecer o não quando na vida futura, se lhe deparam tantos nãos? Pensemos todos nisto, pois nós, pais, precisamos mais de ajuda do que críticas.

A Presidente da Associação de Pais do Agrupamento de Escolas de Murça

Clementina Borges

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