Será legítimo falar de geração à rasca? Por vezes tenho algumas dúvidas. Só percebemos o quão bem estamos quando perdemos algo ou então por comparação. É isso que vamos fazer agora para perceber melhor o que é de facto crise ou dificuldades.
Pois bem, em crise, viviam os escravos romanos que tinham de alimentar os fornos que aqueciam as águas das termas que os senhores frequentavam;
Em crise, viviam os servos na Idade Média das margens do Loire que trabalhavam arduamente de sol a sol e comiam um pão mal amassado e mal cozido e dormiam no chão e a primeira noite era sempre para o seu senhor;
Em crise, viviam os adultos e as crianças nos séculos XVIII e XIX que famintos e com os pés molhados trabalhavam mais de 12 horas por dia, e a casa onde viviam não tinha água canalizada, não tinha esgotos, aquecimento…;
Em crise, viveram os judeus e os ciganos que foram perseguidos pelas forças nazis;
Em crise, viveram e vivem todos aqueles que vivem sob regimes ditatoriais, onde os direitos humanos são uma palavra vã;
Em crise, vivem as crianças que, nalguns países africanos, trabalham no garimpo sem quaisquer direitos e apenas com deveres e as crianças que nos países do Oriente continuam a cozer a bolas de futebol com que as crianças e adultos do Ocidente se divertem;
Em crise, vivem os refugiados nos diversos campos desde a África Oriental ao Norte de África;
Assim sendo, que dizer a um aluno que entra na sala de aula com uma série de instrumentos de utilidade duvidosa, nomeadamente, auscultadores, MP3, … afinal estaremos mesmo em crise?
É claro que sob o ponto de vista de alguns indicadores económico-financeiros, estamos em crise, visto que a economia não tem crescido. No entanto, a forma, como vivemos, nega essa ideia de que estamos a atravessar uma crise. Por vezes, temos até a sensação que se trata de uma forma de canalizar ainda mais riqueza para algumas parcelas da economia e finanças já de si fortes.
É claro que há muitas famílias com dificuldades e que o número dessas famílias tem vindo a aumentar e deverá aumentar nos próximos tempos. Por isso, mesmo se torna tão importante ensinar aos mais jovens a importância da poupança e sobretudo a leitura das condições contratuais sempre que se pede um empréstimo, e, de um modo geral, isso não é feito na Escola de uma forma sistemática, como poderia e deveria ser feito. A escola tem de deixar de ser um lugar de transmissão de uma série de lugares comuns e deve passar a ser um lugar de discussão, de reflexão e, acima de tudo, um lugar de trabalho em que os alunos que se empenham sejam recompensados pelo seu esforço pela sua dedicação.
A escola tem de passar a ser mais um lugar de ciência no sentido de poder ajudar os jovens a lidar com situações de crise como aquelas que estamos a atravessar. Afinal a geração “à rasca” são os pais que têm de disponibilizar os meios para satisfazer os caprichos dos filhos, os mesmo que se dizem geração “à rasca” e que penduram no ombro o PC, e nos ouvidos os auscultadores…
Felisberto Fontela
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