No passado dia 22 de Fevereiro, num painel do IX REALMAT, que decorreu na escola sede do Agrupamento Vertical de Murça, fiz uma intervenção acerca da formação contínua. Este artigo pretende ser um repositório das principais ideias aí veiculadas.
Convém clarificar que esta reflexão tem como base a minha experiência como Director de um Centro de Formação da Associação de Escolas (CFAE) de Murça. Não tenho a pretensão de extrapolar as opiniões aqui veiculadas para o universo dos CFAE, muito menos da formação contínua no seu todo.
O meu objectivo consiste em analisar em que medida a formação contínua pode responder às necessidades dos docentes, em particular, e da comunidade educativa, em geral. Não podemos esperar receitas, o importante é analisar cada contexto e verificar quais as formas que aí poderão ser potencializadas e rentabilizadas.
Análise da formação contínua centrada nos CFAE’s
A formação contínua, centrada nos CFAE, deve responder às necessidades e exigências dos docentes das escolas e ir ao encontro das prioridades definidas em sede de Projecto Educativo de cada Agrupamento.
Cada Centro de Formação não pode, ou melhor, não deve promover formação contínua de forma avulsa, sem atender ao contexto em que se insere. Neste sentido, uma análise cuidada do Projecto Educativo de cada Agrupamento pode abrir algumas perspectivas acerca da formação a facultar aos docentes. Além disso, o plano de formação de cada ano é aprovado na Comissão Pedagógica de cada Centro de Formação, onde estão presentes diversos elementos das escolas agrupadas no respectivo Centro. Nestas reuniões, cada um dos seus elementos deve reflectir o pulsar de cada escola ou nível de ensino a que pertence e que representa, para que a formação proposta para cada plano anual possa responder às necessidades dos docentes.
Fazer formação com base em respostas aos tradicionais questionários não responderá às verdadeiras necessidades. Muitas vezes são lançadas acções solicitadas por muitos elementos que acabam por não responder às reais expectativas ou necessidades, sendo frequentadas, algumas vezes, por mera obrigação dos docentes.
O papel dos CFAE’s na formação centralizada
Nos últimos anos, a administração central tem alterado um pouco a prática da formação promovida pelos CFAE’s. Em vez de centrar a formação nas necessidades sentidas nas escolas ou agrupamentos, são organizadas centralmente acções genéricas de uma determinada área considerada prioritária pelo Ministério da Educação. Foram os casos da formação na área das TIC (2006 e 2007) e das Bibliotecas (2007).
Esta forma de promoção de acções tenderá a ser a regra. Este novo paradigma da formação apresenta virtualidades: responde às mudanças preconizadas no sistema de ensino pela tutela; acaba com acções de formação, promovidas por alguns CFAE’s, sem interesse para a prática pedagógica dos docentes; permite desenvolver novas competências nos docentes; promove a uniformização de conteúdos a desenvolver pelos formadores, em função da formação prévia a que são sujeitos; facilita a troca de experiências, nomeadamente ao nível dos formadores; promove um contacto mais efectivo com as Instituições de Ensino Superior, nomeadamente ao nível da formação de formadores…
Mas, esta centralização na concepção da formação contínua, também apresenta fragilidades, sendo de destacar as seguintes: a limitação da formação específica de cada agrupamento ou escola não agrupada; a diminuição da diversidade de formação contínua disponibilizada ao pessoal docente; a falta de resposta às reais necessidades de formação de determinados grupos disciplinares; a dificuldade do acesso à formação na área disciplinar específica de cada docente, para efeitos de progressão na carreira…
Em suma, esta nova forma de pensar a formação contínua pode ser benéfica para os docentes, mas temos que estar atentos às fragilidades enunciadas e a outras que possivelmente surgirão no horizonte.
A massificação das modalidades activas de formação
Um dos aspectos que não deve ser esquecido é a forma como se faz formação nos CFAE’s. Se numa primeira fase as acções eram predominantemente passivas, hoje assume-se, cada vez mais, a importância das modalidades activas de formação. Este é outro paradigma que está a mudar na sociedade europeia em geral, e na portuguesa em particular. O formando não pode ser mais um mero ouvinte como acontecia na maioria dos cursos de formação. Se a formação que recebemos nos vai ser útil na nossa prática quotidiana temos que ser intervenientes activos nessa formação. As modalidades de Oficina e de Círculo de Estudos têm vindo a ganhar uma importância crescente neste contexto. Formadores e formandos constroem materiais, reflectem acerca das práticas, impulsionam mudanças sustentadas nas práticas pedagógicas dos participantes nestas verdadeiras acções de formação.
Estas modalidades activas ainda apresentam outras vantagens ao nível da proximidade entre os intervenientes, devido ao menor número de formandos que frequentam as turmas. Criam-se, então, constantes fluxos de trocas de informação e de experiências que permitem um enriquecimento de todos os participantes em cada acção. Por outro lado, esta formação está em constante ligação com a prática pedagógica, o que permite uma utilização e uma adequação das novas ferramentas analisadas na acção e em contexto de ensino aprendizagem.
Formação contínua no âmbito da Matemática
Está a decorrer, já no segundo ano de implementação, a formação contínua da Matemática entregue às Instituições de Ensino Superior. Convém clarificar que no caso do distrito de Vila Real essa formação é da responsabilidade da UTAD. Se no primeiro ano os destinatários eram apenas os docentes do 1º Ciclo do Ensino Básico, no presente ano lectivo o mesmo programa já se alargou ao 2º Ciclo.
Esta iniciativa do Ministério da Educação foi lançada sem qualquer coordenação com as estruturas de formação que estão no terreno e que se encontram próximas dos docentes destinatários. Seria importante, principalmente para os docentes que tivesse havido esta interligação, pois alargaria o leque de docentes que seriam informados e motivados para a participação nestas acções de formação.
Consideramos este tipo de formação importante, tanto mais que se desenvolve numa modalidade activa, havendo uma estreita ligação com o contexto real de trabalho, algo que este Centro de Formação tem conseguido fazer na maior parte das acções realizadas.
Caberá aos CFAE’s promover acções no âmbito da Matemática dirigidas ao ensino pré-escolar, ao 3º Ciclo e Ensino Secundário. Estamos a trabalhar neste sentido. Temos já acreditadas acções para este público-alvo, que serão colocadas no terreno logo que as condições logísticas e financeiras assim o permitam.
Queremos que as ideias chave da formação promovida por este centro continuem a aplicar-se nas diversas acções que desenvolvemos: preconizamos uma reflexão sobre a prática docente; promovemos uma colaboração e troca de experiências entre os docentes que frequentam as acções; queremos uma aplicação prática das competências trabalhadas na formação; enfim, defendemos uma formação contínua que seja centrada no professor e na sua prática pedagógica, sempre com o objectivo de promover uma melhoria das aprendizagens dos alunos.
Conclusão
Num futuro próximo os Centros de Formação terão que responder sistematicamente às imposições das estruturas hierárquicas superiores, através da operacionalização no terreno de acções pré-formatadas e idênticas em todo o país. Mas, o principal papel dos CFAE’s continuará a ser a resposta às necessidades de formação sentidas pelos docentes de um Agrupamento e às prioridades definidas no Projecto Educativo dos respectivos Agrupamentos de Escolas que serve. Esta formação de proximidade tem um papel essencial no sucesso da formação contínua. Termos formação centralizada pode ser útil para responder às novas exigências da política educativa numa fase de expansão, no entanto, para consolidar práticas e procedimentos que melhorem as práticas educativas a formação terá que continuar a ser descentralizada.
Humberto Óscar Nascimento
(Director do CFAE Murça)